segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O amor começa

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“Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.”
Clarice Lispector

O amor começa. Naquele mesmo café engordurado onde outro amor acabara depois de começar em parques de ouro; num começo de noite de domingo de brisa e lua cheia depois de teatro e alegria; na identificação de um sorriso gêmeo, perdido na multidão, quando eles dois desviaram brevemente a atenção de suas rodas e se olharam encontrados. De repente começa o amor, admirado em singelezas e gratidões; na leveza da mútua admissão de humildades e pequenezas; no reconhecerem-se humanos – falíveis, pois – e nada além. No molhado do ombro amigo que consola a perda de outro amor; na vazante das marés ciscando areias; em trocas de telefones depois de batidas de carros; num quarto de motel, pela manhã, quando o pacto do vazio do sexo casual entre amigos começa a deixar de ser cumprido. Numa trombada acidental em uma loja de CDs em Varsóvia, na poesia barulhenta da Feira do Crato, nos recônditos cantos onde a tensão se desfaz em Mianmar, na fila da carne do mercado do Ver-o-Peso, no encontro casual de dois jovens numa boca-de-fumo no Morro dos Macacos. E se inicia o amor como raiva, inveja, até como ódio, para depois irromper em paixões arrebatadoras que, findas, se desfiarão em ternuras. Pulsa o amor no verão, quando ainda não é mais que tesão nas ancas largas que passam rebolando no calçadão de Copacabana e certamente virá a ser a plenitude atlética de trepadas homéricas ainda antes que o refestelo se torne amor entorpecido; mas mais provável que comece na carência do inverno, estação sórdida, de memórias e abraços. Pode o amor começar na empáfia das mulheres empedernidas que nasceram dizendo não; seguro que vá nascer dos rompantes coléricos dos Florentinos Arizas à procura de suas Ferminas Dazas. O amor começa em sorvetes de pistache em terças-feiras tediosas e é bem capaz que saia das sombras como amor-resposta. Na África se inicia como solidariedade; na Ásia, como sabedoria; em Cuba, como resignação. Em qualquer lugar, como entrega, doação. No Brasil o amor poderá começar da saudade. Nascerá de corações dilacerados, daqueles mesmos que o médico sentenciara imprestáveis para o amor. Três goles de cerveja e o amor começa, uma tortinha de morango e o amor começa, duas aleluias e o amor começa. Em hospitais, já perto do fim, entre os que vão e os que ficam, o amor começa. Por qualquer motivo o amor começa; a qualquer hora o amor começa, em qualquer lugar o amor começa. E começa nem que seja para acabar uma vez mais, ainda antes de começar novamente.
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Este texto foi originalmente publicado no blog Miradouro

sábado, 28 de novembro de 2009

Do meu irmãozinho do outro lado

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"Ninguem que ama verdadeiramente pode submeter o outro ao que quer que seja. Isso não é felicidade. É castigo."

domingo, 18 de janeiro de 2009

Vá ver

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A voz lhe disse (uma secreta voz):
- Vai, Alécio, ver.


(Carlos Drummond de Andrade)



Pois Alécio foi ver. E viu o natural das coisas e das gentes, o cão, o parque, o traço da passagem das pessoas na rua. E viu a graça umbilical do nu feminino, conversas de café, e também o dia, em sua novidade não sabida, a inaugurar-se todas as manhãs. Sabe por quê? Porque Alécio foi ver.

E nós, o que temos visto?

Desconfio que não muito além de nossas dores de barriga, do chefe injusto, do carro que precisamos vender ou queremos comprar. Do novo BBB, Ronaldo no Coringão e deste carro-maldito-que-está-na-minha-frente-e-que-não-anda-a-mais-de-quarenta-por-hora-socorro-eu-estou-atrasado!

É preciso olhar além. Mais ainda: é preciso olhar além e segurar o olhar.

Agora é Gaza a dilacerar-nos o coração e a devastar-nos a alma. Temos todos tido uma opinião, um comentário mais-do-que-oportuno, uma solução pacífica, viável e magistral para o problema. Temos assinado petições on-line, feito passeatas, trocado e-mails fervorosos e nos perdido em longas conversas de bar.

Mas há o cessar-fogo, e em duas ou três semanas Gaza será apenas uma notinha no rodapé nos jornais.

E nós varreremos para algum recôndito canto da memória as seis criancinhas da foto dividindo uma bolacha, as 50 pessoas que agora são obrigadas a dividir uma casa com dois cômodos, a impressionante imagem da mãe inconsolável que perdeu os filhos num bombardeio. As centenas de milhares de pessoas que agora precisarão cada vez mais de ajuda humanitária.

Desta semana em diante teremos opiniões descartáveis sobre o novo governo dos EUA. E na outra sobre o referendo sobre a constituição boliviana. E na outra sobre os novos presidentes da Câmara e do Senado.

E você dormirá reconfortado, sabendo que o mundo está nas mãos de Barack Obama.

Mas a cólera e a inflação continuarão correndo soltas no Zimbábue, Mianmar não será um lugar livre, e o aquecimento global (lembra dele?) seguirá tornando seus janeiros cada vez mais quentes. E a casa em que morarão aqueles 50 palestinos não estará maior.

A minha sugestão vai no imperativo: adote um assunto. Fuce sobre ele na internet. Procure as coisas que não estão te contando. Milite. Movimente a sua rua, o seu bairro, o planeta.

Não deixe de fazer como Alécio: vá ver.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Raposa Serra do Sol

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Desta vez, pasa lo siguiente: o STF retomou hoje o julgamento sobre a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, depois de o ministro Direito ter pedido vista do processo, interrompendo-o há algumas semanas. Pois bem. Mal recomeçou, o julgamento foi suspenso de novo nesta quarta, desta vez por um pedido de vista do excelentíssimo ministro Marco Aurélio Mello.

O que eu estou tentando saber é:
Se o outro ministro pediu tempo para ver o processo, porque ele também não aproveitou e viu? Será que não dava pra fazer outra cópia pra ele?
Mais: se eles estão julgando um processo tão importante, será que os ministros não deveriam saber tudo sobre ele, de cabo a rabo, de trás pra frente e de cor e salteado?

domingo, 16 de novembro de 2008

Mini conto

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Em uma fração de segundos, quando se descongelar este instante, uma bala me vai explodir a cabeça.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O amor acaba (Paulo Mendes Campos)

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O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

recado

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um recado. um que se foi. se foi? um pensamento:
- não me fode, porra!