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Largo da Concórdia. Sábado, 11h30. Um sol de rachar. Uma semi-multidão de militantes petistas, vereadores, deputados estaduais e federais e apoiadores do partido. Ouço uma voz que andava sumida, mas que agora grita num microfone, e que ecoa pelo Largo por meio dos amplificadores do carro de som. É José Genoíno, tentando animar os presentes, preparando a chegada da “futura prefeita de São Paulo”, Marta Suplicy. Um discurso de três ou quatro idéias, que ele repete sem parar por falta do que mais dizer. É aquilo de sempre: que os trabalhadores do Brás são gente do nordeste como ele, como o futuro vice-prefeito, Aldo Rebelo – que, olha, gente, acabou de chegar! – e que a Marta vai fazer mais do que já fez por São Paulo. E que ela tem o apoio do presidente Lula. O deputado interage com os passantes que se identificam com ele, e cita o nome dos políticos presentes, e faz aquele ar de homem do povo, e volta a dizer que o Zé de Abreu – lembram?, ano 2000, o sujeito que tratava Marta por “madame” nos debates, que dizia que era preciso pôr um Zé na prefeitura? -, o Zé de Abreu, nosso colega, que tem um programa na rádio não sei de onde e que ele luta sempre pelo povo do Brás. E então eu penso na assinatura de Genoíno nos contratos, e no também presente Devanir Ribeiro, aquele velho amigo da Lula, aquele da emenda da reeleição. E me pergunto se nos próximos 4 anos eles vão passar por lá, pra discursar, pra ver se a região melhora ou piora, pra tirar foto, pra dizer um oi. Quem sabe eles aparecem para prestar contas?! Eu me pergunto em que acreditam aquelas dezenas e dezenas de pessoas que carregam bandeiras, que entregam panfletos. O que pensarão os homens das Câmaras e Assembléias e seus séqüitos quando entrarem no carro de volta pra casa.
Então ela aparece, a “futura prefeita!” Marta Suplicy. Mal sai do carro, é sufocada pelos fãs? passantes? militantes?, que querem dar beijo, abraço, agradecer, pedir, reclamar, aconselhar. Nós, abutres da imprensa, somos levados pela semi-multidão.
- Eu tenho a sensação de que a visão do inferno é muito parecida com essa daqui – comento com um famoso repórter.
Ele pára, olha pra frente enquanto continua sendo levado pelo mar de gente, e pensa dois segundos, pra depois cochichar no meu ouvido:
- É por isso que eu prefiro o crime.
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